Tem coisa melhor que ônibus lotado no fim do dia? As pessoas já estão tão acostumadas com aquele furdunço todo, que chega a ser natural, “é assim todo dia mesmo, é normal…” diz tranquilamente a empregada doméstica, voltando da zona sul para sua casinha no subúrbio. É um tal de mais gente subindo que descendo, é um empurra-empurra, é a cara feia pro passageiro que quer se enfiar onde não cabe mais. E não é que cabe?
“Dá licença, dá licença, obrigada…” A mulher educada é alvo de risadinhas de canto de boca irônicas da moça que está sentada e nem está sofrendo empurrões.
“Pi Pi!” Apita o rádio do moreno de mochila preta, e agora sabemos que ele vai viajar para um resort na Bahia no dia 23. “Vê se arranja uma vaga lá pra mim e pra Mariana”, diz seu colega de trabalho, o Marcão. “Se machucou?”, diz a senhora que está de pé à jovem, que quase caiu, por causa de uma freiada brusca de mais um motorista impaciente.
“Viu o que está acontecendo no caso Isabella? Tenho muito ódio daquele pai, e que pena daquela menina…” “Alguém vai saltar na UERJ? Heey, ALGUÉM NA UERJ?” E eis que surge a única torcedora fanática pelo Flamengo e levanta o braço, “Eu, eu vou ficar aqui…”. Com voz suave, ela tem medo de apanhar dos inúmeros trabalhadores cansados que só almejam ir para suas casas, e não ir a mais um jogo roubado no Maracanã numa chuvosa quarta-feira.
Enfim, silêncio. Agora consegui um lugar para sentar, ó glória! Fecho os olhos e adormeço, o saculejar dos motores é como uma cadeira de balanço com direito a cantiga de ninar. “ÔÔÔ motorista, eu vou desceeer! ÔÔÔ seu motorista!” Pronto. É melhor eu acordar agora, senão eu posso perder o ponto. Tem coisa melhor?




















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