Archive for the 'Contos' Category

Capítulo 3

De repente, num passo, o pé direito ficou mais leve que o esquerdo. Bem mais leve. E à medida que eu caminhava, um pé ficava mais leve que o outro. Até que os dois ficaram leves demais. Mas eu não voei, porque eu não sei voar. Pelo menos não com os pés. Ao contrário, eu caí exatamente no momento em que o corpo ficou tão leve quanto o pé esquerdo, que estava - naquele momento - mais leve que o direito.

Todo ser humano sofre. Na verdade, todo ser vivo sofre. Mas o ser humano sofre em dobro, porque inventou a palavra “sofrimento” para designar um negócio chamado sofrimento. O jovem indiano que apanha todo dia de seus colegas de escola e já foi vítima de todo o tipo de doença, a última delas a leucemia, sofre. Ou sofria. A menina quase rica que deseja trocar seu Fiat Punto por uma BMW e recebe um não de seu pai sofre. Eu sofro por meus motivos, que estão muito mais próximos da futilidade da menina do que da leucemia do pequeno indiano. Mas nós 3, em algum momento, tomamos consciência de que estamos sofrendo. E isso nos faz sofrer mais.

Um peixinho dourado, blasé, dentro de um aquário, por motivos desconhecidos, deve sofrer ao longo dos seus meses de vida. E quando sofre, dentro de seu sistema nervoso desconhecido, ele deve “pensar”: glub! E sua vida segue menos sofrida até que ele tenha um outro motivo desconhecido para sofrer e o resolva com um outro glub.

Há alguns poucos anos atrás ela deixou, acidentalmente, um cachecol verde jogado em cima da minha cama. Nunca mais voltou para buscá-lo. E eu nunca a avisei que o cachecol havia ficado em casa, mesmo depois de ter devolvido tudo mais dela que havia por aqui, acidentalmente. A única coisa não acidental nessa história toda foi o fato de eu não ter devolvido, até hoje, o bendito cachecol.

Há alguns meses a gente estava sem ver e sem se falar. A última vez que nos falamos não trazia boas lembranças, nem pra mim, nem pra ela, nem para as testemunhas. E num domingo acidental, tomando café da manhã na padaria, batendo um papo acidental com o Cido, o balconista, ela passou acidentalmente pela calçada, com um fone de ouvido e um sorriso daqueles que não são momentâneos. Um daqueles sorrisos de quem está feliz. Eu sou capaz de descrever exatamente cada peça de roupa que ela estava usando naquele momento, bem como seus óculos e seus brincos, só com a memória dos quatro ou cinco acidentais segundos sobre os quais ela desfilou sobre a calçada estreita da padaria. Mas prefiro não fazê-lo, para não despertar a consciência humana do sofrimento. Passei alguns segundos paralisado no banco, debruçado no balcão, tomando cada vez mais consciência da palavra sofrimento. Fui interrompido pelo Cido, que acidentalmente perguntava se eu queria mais um pingado, enquanto pingava água salgada no balcão.

O cachecol eu deixei guardado na última gaveta do meu armário, sob uma enorme pilha de roupas que eu não uso e nunca vou usar. Em alguns segundos, todas elas estavam jogadas no chão, enquanto o cachecol repousava sobre a minha mão, leve como o sofrimento. Talvez a maior besteira que eu tenha feito nos últimos anos foi tê-lo trazido para perto do nariz para saber se ainda conseguiria sentir o cheiro dela. Nesse momento eu desejei ser um pequeno indiano, apanhar todos os dias e sofrer de leucemia.

Um passo após o outro, cada vez mais leve. A minha consciência do sofrimento sugava todas as energias do meu corpo e fazia meu caminhar quase levantar vôo. Mas o peso na cabeça me impedia de sair do chão e me empurrava cada vez mais para baixo. Temia que meus pés fracos não sustentassem este peso. Num último esforço besta de tentar retomar a força do corpo e aliviar o peso da cabeça, eu pensei: Glub! E desabei, sem consciência de sofrimento nem de coisa alguma.

Penso que temos muito a aprender com os peixinhos.

Riccioppo

* Mais um ótimo conto gentilmente cedido por  Pseudomini.

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Rachí Terremoto

Rachí um menino, nascido em Agra, na Índia. Sempre teve muitos problemas de saúde. Vivia em hospitais e clínicas, mês sim, mês não. Rachí já teve todo tipo de doença que se pode imaginar: hérnia de disco, catapora, cancro, soluço de 3 meses, caganeira, mijo solto, perfuração de tímpano… só que a seqüela mais grave foi proveniente de uma surra que levou de uns militares quando adolescente, ficou cheio de tremedeira. Tomou muita porrada na cabeça, bicuda de coturno, cuspe no olho e dedo molhado na orelha… foi isso que deixou ele lerdo e não o haxixe que, sagradamente, fumava todo dia ao som de uma cítara bem tocada.

Rachí amava música. Gostava de dançar, fato que a tremedeira facilitava e o colocava em uma posição menos desconfortável porque ao som de uma música dançante sua tremedeira era sua aliada. Mal fazia esforço, fumava o haxixe e deixava apenas as ondas sonoras penetrarem seu corpo fazendo com que seu sistema nervoso debilitado fizesse o trabalho de se balançar. O ruim mesmo era pra escrever, tanto no caderno como no computador. Se acaso começasse a fazer uma redação, ao final parecia um caderno de uma criança de 6 anos, cheio de rabiscos, partes da folha rasgadas por forçar a ponta do lápis para a mão não escapar. Ficava puto de não ter controle de suas mãos em certas horas. Em outras era de bom grado que tremelicassem como, por exemplo, quando ia se masturbar. Desde que tomou aquela surra, Rachí não sentava mais na mão pra parecer que era outra pessoa… isso se chama economia de tempo.

O Sistema nervoso é bem curioso. Por levar o nervoso no nome, Rachí pensou que talvez o transe sagrado do haxixe o fizesse ser um sistema calmo. E assim, pela primeira vez, decidiu escrever depois de fumar. Suas mãos realmente ficavam mais tranqüilas… seu corpo não tremia tanto. Rachí pensava que como toda ação tem uma reação, sua tremedeira saía das mãos e ia para os confins da mente. Sua cabeça virava um turbilhão de idéias. Pensava mil coisas em mil segundos e isso dá uma média de 1 coisa por segundo. É coisa pra caralho! Mas foi assim que levou sua vida. Um dia, muito tempo depois, enquanto saía de um banheiro público, encontrou Sindhú, um amigo fanfarrão de infância,:

- Rachí! Quanto tempo!

- Sindhú! É você?

- Sou eu sim porra! Quanto tempo rapaz!

- Pois é, como anda?

- Eu ando bem e você? Anda tremendo ainda? - gargalhada -

- Eu?

- É! você porra! Até hoje me lembro de você na escola… tremia todo, atrapalhava até a aula com o barulho da cadeira batendo contra o chão e a parede. Rachí terremoto! - gargalhada - lembra?

- Lembro…

- Tinha também um lance que tu ia mijar e ficava igual a um chafariz! teve uma vez que conseguiu mijar o banheiro todo na hora do recreio!

- É…

- E quando tu apareceu com maior cheio de merda na sala? Tu cagou mal pra caralho e quando foi se limpar espalhou merda por toda a extensão das nádegas até um pouco das pernas e lombar… lembra da tua camisa cheia de merda, Rachí?

- Mais ou menos…

- E agora Rachí?

- Agora? … só cago chapado!

Fabiano Albergaria

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Capítulo 2

Mamãe tem o estranho costume de me chamar de egoísta. É algo que eu ouço desde o início da minha adolescência, época que minha memória consegue alcançar com certa clareza. Durante anos esta crítica não me fazia mal nenhum, mesmo ganhando um coro de mais vozes, além da sagrada voz materna. Mas ultimamente é algo que me tem feito parar para pensar um pouquinho. Eu considero o egoísmo uma característica natural da espécie humana, variando em intensidade entre uns e outros. Mas todos somos egoístas.

E foi do alto de todo o meu egoísmo que eu disse algumas frases que a deixaram assustada, logo quando nos conhecemos. Pra mim, o maior filósofo, pensador, didata que eu conheço sou eu. Reconheço: é algo forte de ser dito e soa extremamente prepotente aos ouvidos desavisados.

Eu tive a sorte de ter acesso ao trabalho de pensadores interessantes, de filósofos (pensadores etiquetados) relevantes e de professores instigantes. E do alto de todo o meu altruísmo, digo com convicção que grande parte deles teve uma participação importantíssima na construção de minhas convicções. Acontece que o que tem valor de fato não é o que eles escrevem ou lecionam, mas sim a minha compreensão disto. Na verdade, a minha, a sua, a deles. No meu caso, minha. Egoísta, não?!

Ela não conseguiu entender o que pra mim é muito simples. Num bar, em certa ocasião, após umas, outras e mais outras, conversávamos sobre identificação. Tentávamos entender os porquês de nos identificarmos com certas coisas e não com outras. Porque adoramos certa música e odiamos outra. Porque preferimos o conceito de Fulano sobre o destino ao conceito de Cicrano. Porque acreditamos em Deus do pai nosso ou num deus só nosso. E o mais importante disto tudo: Por que eu adoro azul e você lilás? Eu tenho uma boa hipótese sobre isto e não foi nenhum filósofo/pensador/professor/filme/música/passarinho que me disse. Não explicitamente. A explicação é simples: Nos identificamos com aquilo que nos soa familiar.

Ah, mas aí é mole. Nos identificamos com nossas mulheres porque elas têm características em comum com nossas mães. Isto é manjado. Freud explica.

Ok, mas por que nos identificamos tanto com aquela frase muito breve dita por aquele ator naquele filme que mudou nossa vida e nossa maneira de pensar e nos fez pensar: Porra! Como é que eu nunca pensei nisso antes? Na verdade, já pensei nisso antes, mas nunca havia me dado conta disto. Talvez tenha pensado há 2 anos, há 10 anos, 2 minutos antes de nascer ou quando eu era uma artesã em uma cidadezinha na região que hoje é conhecida por Praga. Vai saber. Mas eu me identifico porque isto está na minha memória, na minha genética, nos meus registros, no meu banco de dados, no meu arquivo pessoal. Chame como quiser.

E o mais intrigante é que talvez esta minha explicação sobre identificação não faça o menor sentido para você, assim como não fez para ela naquela mesa de bar. Mas acredito que isto aconteça porque isto não está na sua memória, genética, no seu registro etc etc etc… E mesmo que você não gaste um segundo do seu pensamento para tentar entendê-la, talvez ela faça todo o sentido para você e para ela se eu repeti-la daqui a 2 ou 10 anos. Talvez daqui a 2 minutos. O importante é que eu deixei o meu conceito no seu registro. Sou egoísta como os filósofos.

Gostaria, mais do que tudo, de ter a oportunidade de dizê-la novamente, exatamente com as mesmas palavras, tudo o que eu penso sobre identificação e ver se desta vez ela entenderia. E ouvi-la dizer, mais uma vez, Você é um grande egoísta, de uma forma tênue e carinhosa, como só mamãe saberia dizer.

Riccioppo

* Riccioppo gosta de Michael Jackson, Baia, de estudar e de batata. Além disso, escreve o blog PSEUDOMINI. Vale a visita!

Meu Filho Maconheiro

Meu Filho Maconheiro é mais uma pérola do nosso amigo Adolar Gangorra… disfrutem!

Nunca pensei que isto aconteceria na minha família. Foi um choque! Achei a tal da maconha no quarto do meu filho Tiago. Fiquei assustadíssima! Lá estava ela jogada no chão, desafiadora, olhando para mim. Reconheci-a imediatamente pois já tinha a visto no “Cidade Alerta”. A famosa maconha, aquele pó branco, perfumado e com aspecto familiar. Basta fumar uma vez e pronto! Você estará viciado para sempre!

Olhei melhor e percebi que Tiago a escondia num frasco de talco. Gelei na hora. Ele também estaria traficando a tal da maconha! Agora tudo fazia sentido. Lembro-me do dia em que vi, pela fresta da porta do quarto, Tiago sacudir seu tênis antes de sair. Era lá que ele escondia a droga para vender nas ruas. Nervosa, comecei a procurar alguma maconha nos seus outros pares de tênis. Cheirei um por um para ver se encontrava algum resto ali. Acordei do desmaio ao lado da poça de vômito. A maconha, quando estocada, fica um cheiro desgraçado de feto de urubu molhado! Aquilo não estava acontecendo!!! Quem diria? O meu Tiago, um garoto exemplar de 12 anos, excelente aluno, tinha se tornado um viciado mercador da morte!

Após me acalmar um pouco, decidi enfrentar o problema. Certa feita, vi no programa da Hebe um psicólogo falando que os pais deveriam conhecer os efeitos da droga para poderem identificar um possível usuário na família. O que fiz então? Resolvi eu mesma fumar a famosa erva do diabo! Peguei um cachimbo velho do meu marido Anselmo, enchi-o com o pó maldito e acendi. Traguei o quanto pude. Tossi muito, engasgando várias vezes. De repente, uma nuvem branca surgiu do nada. Sentia tudo girar! Vários pensamentos esquisitos foram aparecendo na minha mente…

Agora estava claro que eu odiava cozinhar quiabo para o Anselmo, aquele sacana! Quiabo na panela antiaderente de teflon. Nada gruda numa panela destas, eles dizem. Pois sim! Se nada gruda nessa panela, como é que eles fizeram para grudar o teflon nela, porra? Eu vou é grudar uma panela de teflon antiaderente na cara do Anselmo, aquele filho de uma puta aderente! Aderente à calcinha, eles dizem! Pois sim! Nunca mais vou usar a merda do O.B! O. B.? O.B. - Obstrutor de Buceta! Grandes merdas! Não é mole enfiar aquele troço não, meu chapa! Eu queria ver o Anselmo enfiar um maço inteiro de quiabo no cu. Quiabo cru! Fala rápido: quiabo cru! Quiabo cru! Quiabro o cu! Abro porra nenhuma, rapaz!

Que horror! Estava em transe e não tinha notado! Que droga mais poderosa aquela! Eu, mãe, esposa e dona de casa, em apenas 15 minutos havia me tornado uma maconheira profissional! Pronto, estava viciada para sempre! A transviada do 502! Que vergonha, o que os outros iriam dizer? Não, aquele seria o meu segredo! Ninguém poderia ficar sabendo. Devido ao efeito da maconha, minha língua ficou branca e com um gosto miserável de talco. Para não dar na vista, resolvi que não abriria a boca, não falaria nada com Tiago. Apenas torceria para que o meu pequeno traficante deixasse cair mais da tal da maconha no seu quarto para que eu pudesse sustentar esse meu vício eternamente…

Adolar Gangorra, 66 anos, é editor do site humorístico Os Reis da Gambiarra e não usa drogas apesar de dirigir um Lada 92 montado na Guatemala.

* Aproveitando o ensejo… UM SALVE PRA GERAL DO FILIPETA DA MASSA!

O Cheiro Do Rabo (Cheiro de Merda)

Faz tempo que não posto nada, não tenho tido tempo pra porra nenhuma, só trabalho. Então vou postar um conto, que é grande pra caraleo pra um blog, mas foda-se, assim vocês vão estar ocupados por mais tempo. Ah, escrevi no ônibus, pois é a única hora que tenho pra fazer algo pra mim.

Acabou de abotoar o último botão da camisa, pegou sua carteira e separou dois reais e dez centavos. Toda a manhã ele fazia a mesma coisa, celular no bolso esquerdo, chaves e dinheiro da passagem no bolso direito, carteira no bolso de trás. Enquanto fazia seu ritual matinal, se imaginava como personagem de um conto barato, onde tudo de ruim acontece: Tammer da Cruz se preparava para mais um dia comum de trabalho, sem saber que os acontecimentos desse dia iriam mudar todo o seu futuro.

Continue lendo ‘O Cheiro Do Rabo (Cheiro de Merda)’

A Bomba de Enxofre

Andarilhos, infelizmente, nosso querido Samuel Punzi retirou seu blog do ar… Segundo a figura, está atrás de novas paragens mas agradece as visitas e presenteia a gente com mais esse conto, como ele mesmo definiu: nada ortodoxo.

A bomba de enxofre

Ela pensa em alemão, sonha em alemão. Pensar em alemão… Porra! Eu não falo nem o português corretamente, o que dirá o alemão. Será que ela peida em alemão? Ela deve tomar Luftal. O peido sobe e vira arroto. Que merda! Mas ela pensa em alemão. Prefiro que o peido saia pelo cú mesmo fazendo aquele esporro todo: PROOOM, POC, BRUUUMMM, POC POC POC, FOOOMMM. Tem também o peido ninja, aquele que chega sem fazer barulho e derruba tudo pela frente.

Porra, já pensou?

Ficar parado entre as duas torres do Congresso Nacional e na hora do plenário durante a votação do aumento do salário dos deputados - plenário cheio, né?! - fazer igual Sansão. Fazer tanta força que o Congresso cai: uma torrezinha para cada lado. Bonita imagem.

Bem, mas eu estava falando que ela pensa em alemão e não em peido. Acho que nunca estudaria alemão. É difícil pra caralho. Eu estudei francês e italiano. Um pouco dos dois. Francês, estudei no Maison de France faz muito tempo. Era bom aluno, tinha boa pronúncia, mas comecei a comer uma mina da minha sala. O professor também queria comer ela e me reprovou porque eu comi a mina primeiro que ele. Filho da puta. Depois descobri que o cara era uma bicha. Filho da puta duas vezes.

Depois fui estudar francês com um francês nato. Era de Bordeaux: Monsieur Raphael. Um puta vitralista, um artista de mão cheia. O único vitral para o qual não fez o desenho foi um trabalho encomendado por Marc Chagall. Bom, foi coisa de artista pra artista. Esse era macho de verdade. Achava que o veado era eu. Continue lendo ‘A Bomba de Enxofre’

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Pergunte ao Cúdi

Um típico dono de bar. Cara tranqüilo, sossegado e que ao mesmo tempo se fazia respeitar por todos, até pelos mais exaltados da roda de samba das quartas-feiras. Esse era o Cúdi. Ganhara o apelido de Compadre quando era menino. E com o passar dos anos virou Cumpadi e não tão mais tarde, Cúdi. “Acho bom parar por aí senão a coisa vai feder”. Brincava Cúdi com a rapaziada. Era visto com admiração pelos freqüentadores do seu boteco. Separava brigas, dava conselhos, prescrevia remédios, ensinava simpatias, compunha samba, debatia acerca de política, futebol, mulher e religião. Cúdi, era do tipo que não ficava em cima do muro. Até o dia da discussão.

- Tem.
- Não tem.
- Eu tô falando que tem.
- Tem porra nenhuma.
- Se eu tô te falando que tem é porque eu sei.
- Sabe como?
- Já passei por isso e tive.
- Deu sorte.
- E você, como pode afirmar com tanta certeza que não tem?
- Meu primo passou por isso e não teve.
- É sempre um primo.
- Ué, não preciso mentir. Se fosse comigo eu diria, ora.
- Beleza, mas conta a estória do teu primo então.
- Ele me contou que não tem. Disse que achava que tinha, mas se deu mal por isso.
- Coitado.
- Pois é, mas acho que é tudo questão de se policiar pra não dar mole.
Cara, graças a Deus nunca aconteceu comigo. Talvez por isso eu continue achando que tenha.
- Eu…Digo…Meu primo não é mentiroso.
- Não tô dizendo isso, mas parece lenda isso tudo que contam.
- Tem, cacete.
- Mas então como é que fica?
- Tem, mas só durante aquele período. Depois volta a ser como era.
- Que merda.
- Só eu sei.
- Você??
- É. Meu primo ficou traumatizado.
- Não sei, cara. Ainda acho que não tem.
- Caralho…Tem.
- Quer ver só? Vamos perguntar pra uma pessoa imparcial.
- Tá.
- Cúdi, bêbado tem dono?

Cúdi nunca mais discutiu ou se meteu em conversa alheia ao seu conhecimento.

Diogo Silveirinha

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Tem coisa melhor?

chargeaeroportos Tem coisa melhor?

Tem coisa melhor que ônibus lotado no fim do dia? As pessoas já estão tão acostumadas com aquele furdunço todo, que chega a ser natural, “é assim todo dia mesmo, é normal…” diz tranquilamente a empregada doméstica, voltando da zona sul para sua casinha no subúrbio. É um tal de mais gente subindo que descendo, é um empurra-empurra, é a cara feia pro passageiro que quer se enfiar onde não cabe mais. E não é que cabe?

“Dá licença, dá licença, obrigada…” A mulher educada é alvo de risadinhas de canto de boca irônicas da moça que está sentada e nem está sofrendo empurrões.

“Pi Pi!” Apita o rádio do moreno de mochila preta, e agora sabemos que ele vai viajar para um resort na Bahia no dia 23. “Vê se arranja uma vaga lá pra mim e pra Mariana”, diz seu colega de trabalho, o Marcão. “Se machucou?”, diz a senhora que está de pé à jovem, que quase caiu, por causa de uma freiada brusca de mais um motorista impaciente.

“Viu o que está acontecendo no caso Isabella? Tenho muito ódio daquele pai, e que pena daquela menina…” “Alguém vai saltar na UERJ? Heey, ALGUÉM NA UERJ?” E eis que surge a única torcedora fanática pelo Flamengo e levanta o braço, “Eu, eu vou ficar aqui…”. Com voz suave, ela tem medo de apanhar dos inúmeros trabalhadores cansados que só almejam ir para suas casas, e não ir a mais um jogo roubado no Maracanã numa chuvosa quarta-feira.

Enfim, silêncio. Agora consegui um lugar para sentar, ó glória! Fecho os olhos e adormeço, o saculejar dos motores é como uma cadeira de balanço com direito a cantiga de ninar. “ÔÔÔ motorista, eu vou desceeer! ÔÔÔ seu motorista!” Pronto. É melhor eu acordar agora, senão eu posso perder o ponto. Tem coisa melhor?

Brenda Carolina

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Despedida bizarra no metrô

Metrô lotado às 18h35 de uma quinta-feira. As pessoas já estão animadinhas porque o fim-de-semana bate à porta dos desesperados. Dois homens se despedem de uma colega de trabalho:

Fulano: - Já vai? Não vai pra Pavuna hoje não?

Sicrana: - Não, hoje vou ficar por aqui mesmo…

Fulano (tentando lançar um olhar sedutor): - Hummm então vou com você! Me leva?

Sicrana: - Vou descer aqui no Estácio, vou pra casa do meu namorado…

Beltrano: - Ah é? Vê se vai pro trabalho amanhã, hein!

Sicrana: - Amanhã não vou não, vou no sábado.

Fulano: - E sábado então, vamos pro pagode, né?!

Mulher sai do metrô soltando risinhos pro coleguinha.

Fulano: - Ela já tá namorando de novo?

Beltrano: - Tá, tá, é um cara desse tamanho (apontando pro teto do metrô).

Fulano: - Pqp, que vagabunda!

Beltrano: - Ah, que é isso, também não é assim…

Fulano: - É assim, sim! Nunca vi, não pára quieta um minuto, tá sempre com alguém, não sossega!

Beltrano: - Ah, isso é… Mas não tem nada a ver, o que ela pode fazer se tem talento?

Fulano: - Talento? Ela gosta é muito, isso sim. Ah, como gosta!

Beltrano: - Ah, deixa ela, coitada!

Fulano: - Sério, não tenho coragem de ter mulher assim não, imagina! Homem pode ser galinhão, mulher não, mulher tem que se dar o valor! Homem pode, mulher não!

Beltrano dá um sorriso forçado e não fala mais nada.

“Há duas coisas infinitas: o Universo e a tolice dos homens.”

Albert Einstein

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Como pegar mulé

Eu já tinha publicado aqui sobre como badalar seu fim de semana e se dar muito bem, relembre aqui.

Pois então, ESQUEÇAM. Vou lhes passar uma nova técnica que descobri, basta você seguir fielmente essa doutrina e não tem erro, é pegação na certa.

O nome dessa técnica Jedai supersaiajeans level 12 é Pintocóptero.

A primeira coisa a ser feito é localizar a menina desejada. Feito isso, procure o banheiro mais próximo para tirar a cueca e coloca-la na cabeça, isso mesmo, tipo o homem codorna. Depois saia correndo em direção a menina desejada e trombe nela com tudo, derrubando-a no chão, cuidade para não esquecer onde ela estava e acertar aquela Dragão Zord dentuça. Óbvio que ela vai ficar puta e vai dizer algo tipo:

- O MULEQUE filha da puta!!! OLHA POR ONDE ANDA CARALEO!!!

Nesse momento permaneça em silêncio apenas observando com imparcialidade, preste atenção que agora ela prestou atenção em você e notou a cueca na cabeça.

Então ela fala:

- O QUE QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO COM ESSA CUECA NA CABEÇA SEU RETARDADO??

Então diga exatamente essas palavras:

- Se eu estivesse usando cueca não poderia fazer isso:

Então abaixe as calças e comece a girar seu pênis com volúpia no sentido anti-horário a umas 2 rotações por segundo. ATENÇÃO NESSA HORA, pois tem que ser exatamente assim. Não vai demorar muito para que ela começe a ficar estupefata e dizer:

- Nossa! que membro viril e maleável! E como gira com desenvoltura e harmonia! ME POSSUA AGORA!!!

PRONTO! Ela vai arranca a própria roupa, pular em cima de você e te dar ali mesmo. Depois disso, ela ainda estará disposta a inúmeras noites de sexo selvagem e prazeroso

Se você seguir religiosamente cada passo, isso sempre funcionará. Batata. Essa técnica é totalmente infalível.

Essa técnica foi inventada por monges budistas hereges, que abandonaram suas elucidação espiritual para gozar de seus conhecimentos secretos milenares. Tirando proveito ao máximo de suas vidas e se tornando grandes inspirações para os neo-egocêntricos niilistas.

Porém, outra vertente diz que tudo começou aqui!

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