NEM TUDO É BELEZA NA CIDADE MARAVILHOSA.

Morte iminente por insolação no ponto de ônibus. Eis que surge o tão ordinário veículo para nos levar a qualquer destino físico dentro dos limites da cidade.


Como em todo lugar dessa metrópole, o barulho e vozes altas dominam o ambiente. Em destaque, a conversa entre trocadores da linha que nos levava: “Vambora, deitão! Mole pra caramba!”; “Daqui a umas três horas a gente chega na Saens Peña!”; “Alá, alá! Como deita…”.

Era um senhor de meia idade, calvo e acumulava mais funções que o bom-senso admite: a de dirigir, a de receber e conferir o troco. Na concepção que deveria vigorar, andava de acordo com a velocidade compatível do trânsito, respeitando as pessoas dentro e fora daquele ônibus, diferente de muitos, senão a maioria dos seus colegas, que tentam consciente ou inconscientemente colocar em risco a nossa integridade física. Respeitava o sinal vermelho, o que é raro entre todas as classes de motoristas dessa cidade. E por isso, “deitava”. Parava no ponto para que nenhum infeliz ficasse esperando o próximo ônibus, fato muito recorrente para a linha. Respeitava os passageiros, por isso “deitava”. “Já tá cheio, já tá cheio, deitão!”, dizia o colega da linha instigando o motorista a deixar as pessoas esperando o próximo.

Ao ouvir aquilo tudo, a revolta ia crescendo e com ela a vontade de dizer para aquelas pessoas quão ignorantes elas eram. Dizer que o mundo de bosta que a gente vive existe graças a elas. Em todos os níveis: do trocador ao homem engravatado, todos contribuem com as suas pequenas ou grandes ações pro mundo desumano em que somos obrigados a viver. Ninguém se importa mais em ser desrespeitado. Ninguém liga se o sinal está vermelho e os carros não cessam em passar. Aceita-se e espera-se o próximo. Não há problema se o motorista anda a oitenta por hora numa rua em que se deveria andar trinta quilômetros a menos e que a todo instante um poste parece ameaçar entrar involuntariamente no ônibus. Ninguém expressa ao menos a insatisfação com a corrupção alastrada em todos os setores da nossa sociedade. Alguns mesmo sem saber contribuem, inclusive, para ela.

O errado tornou-se certo e agora o que se deve fazer é buzinar para o pedestre safado que atravessa na faixa e no sinal vermelho. Que direito ele acha que tem de atravessar a rua, ora essa?! As ruas são feitas para carros. O pedestre e todo o resto que se dane!

Em todas as esferas, o que domina é a falta de respeito generalizada e banalizada. Seja no trânsito, seja no nosso dinheiro que sustenta o luxo de figurões ou ainda no simples e “inocente” ato de furar fila, quando as minhas necessidades são muito mais importantes que as suas, onde o meu tempo é mais importante que o seu e otário é quem espera pacientemente na linha de pessoas pela sua vez. Atos tão diferentes regidos pelo mesmo princípio: o desrespeito.

Somos todos responsáveis pelo mundo em que vivemos. É cômodo e igualmente estúpido culpar terceiros, sobretudo aqueles que nos governam. Se vivemos na imundice, não é porque o prefeito coloca poucos garis nas ruas, mas porque nós sujamos o chão. Se o trânsito é tão inseguro, não é falta de agentes para multar, mas sim porque dirigimos com irresponsabilidade. Se o político nos rouba descaradamente é um filho da mãe. Mas quantos não fariam o mesmo se estivessem no lugar dele?

Sim, essa consciência não nasce conosco, mas sim da educação que recebemos ao longo da vida. Mas quantos têm uma boa educação, mas ignoram essa consciência?

O Rio de Janeiro continua lindo e não tão lindo assim…

Marcelle Pacheco

Avalie esse artigo Que merda!Legalzim!Bacanudo!Irado!Fodástico! - 2 voto(s)
Loading ... Loading ...
Leia também

1 Response to “NEM TUDO É BELEZA NA CIDADE MARAVILHOSA.”


  1. 1 Becarol

    Muito bom! Marcelle sempre arrebenta!
    O texto me inspirou a contar um caso também absurdo, mas que as pessoas acabam achando natural que aconteceu comigo no ônibus. Aconteceu comigo não, né, aconteceu e acontece todos os dias na Cidade Maravilhosa…
    Vou postar qq dia!
    Beijos!

Leave a Reply