Quem disse que quero falar? Que quero ouvir? Felicitar, saber?
Estou aqui no meu quarto, na minha casa, encerrada na minha reclusão, no meu canto, no meu resquício de privacidade… Tenho o direito de permanecer incomunicável. Será mesmo?
Com o advento do ICQ e seus sucessores, principalmente o maldito msn, questiono a validade desse direito.
Alguns direitos são senso comum… Inquestionáveis. Mas na prática o que se observa é outra coisa. Por exemplo, deveríamos ter o direito de ir e vir e de ter um sono tranqüilo em noite silenciosa a partir das dez. Mas há sempre aquele cidadão folgado, arrogante, desrespeitoso e ignorante para colocar o carro na calçada obstruindo nossa passagem ou simplesmente nos impedindo de atravessar na faixa de pedestre quando nos é de direito. Ou o vizinho mala ouvindo o Jô nas alturas em plena quarta-feira. Ou segunda, terça… Não importa. Mas isso é outro assunto.Voltemos aos maravilhosos feitos da comunicação pós-moderna.
Foi-se o tempo em que uma notícia demorava alguns dias para chegar do Rio a Pernambuco. Ou um convite adiado pela impossibilidade de não se estar em casa e atender ao telefone. Esses e outros empecilhos foram facilmente suprimidos por engenhosos e velozes instrumentos de comunicação. Um após o outro, pagers, celulares, e-mails e programas de conversa instantânea tomaram nosso dia-a-dia, permanecendo “indispensáveis” na nossa vida profissional e social.
É inegável a facilidade que temos atualmente de nos comunicar. Igualmente fantástica é essa facilidade. Em apenas alguns minutos, em regra, podemos noticiar o que for para quem for não importando onde esteja por correspondência. Ou então transmitir algo importante ou não, urgente ou não para aquela pessoa que transita despreocupadamente pelas ruas. Ou ainda fazer um simpático convite, jogar conversa fora, ou mesmo dizer apenas um “oi” para aquele que está simultaneamente atrás da tela brilhante ocupado com coisas importantes ou simplesmente passando o tempo.
Podemos nos comunicar a hora que nos bem entender, com quem nos der na telha e da forma que acharmos mais apropriada para o momento. Podemos.
No entanto, o “ter a possibilidade de” tornou-se um “tenho a obrigação de”. Temos obrigação de andar encoleirados com o celular o tempo inteiro, sempre dispostos a falar onde estamos, com quem estamos, o que estamos fazendo e a que horas voltaremos. Ou sempre disponíveis para bater papo ou dizer “oi” via icq, msn, skype ou o diabo que for.
Não. Não temos obrigação alguma! O direito de nos comunicar não deve ser entendido, sob nenhum aspecto, como obrigação. Não quero falar com quem estou, nem o que estou fazendo. Não quero, tampouco, conversas frívolas ou saudar a simpática carinha sorridente. O fato de se estar diante da tela brilhante e o verde do bonequinho, da bolinha ou do sei lá mais o que não querem dizer que estejamos disponíveis ou simplesmente a fim de nos comunicar. Pensando nisso, muitos softwares desenvolveram a astuciosa estratégia do “invisível”. Mas infelizmente, nem sempre ela é suficiente para atenuar toda essa facilidade. E aí, me pergunto de novo: e o direito de permanecermos incomunicáveis? E a nossa privacidade? Temos? Ou o msn e afins já nos tiraram? O que é tão urgente que não se pode esperar?
A limitação, que antes era um problema, hoje torna-se um possível caminho para a preservação da nossa liberdade.
Marcelle Pacheco.




























Penso exatamente como você, muitas vezes já fiz questão de “demorar” para estabelecer comunicação com todos, só pra não ficar transtornado com tamanha falta de impaciência que isso causa. Uma vez que estamos acostumados a nos comunicar por vias instantâneas ficamos a mercê delas. Fica comum as brigas de namorados porque não atendeu o celular rápido, o garoto não pode mais dar aquela escapada pra fazer arte, pois a mãe logo consegue falar com ele e um encontro se converte em mais conta de celular pra pagar, pois não adianta apenas marcar um lugar e hora, tem que ter um relatório a cada segundo de onde está e o nervosismo predomina quando há imprevistos.
Uma coisa que eu sempre falo é que temos que ser mais tolerantes com os outros e com nós mesmo, o excesso de comunicação nos transforma em pessoas intolerantes, aflitas e ansiosas, que por sua vez nos leva a ter angustia, e assim ficamos a mercê das industrias culturais que trabalham em cima de nossas angustias, como disse no outro post (http://estradademaria.com/2007/10/24/cultura-industrializada/).
Pois é, qualquer trivialidade torna-se urgente. E realmente, a qualquer encontro deve-se fazer um relatório, rsrsrs… Muito bom! É insuportável esse excesso e a impaciência que isso gera, como apontado por você. Me dá nos nervos a incompreensão de algumas pessoas (a maioria na verdade). Ficamos escravos da velocidade e se não compactuamos com isso, somos anti-sociais e mal-educados…
A entrega à tecnologia é inevitável. Não sou fã de celular, mas tenho um por “obrigação”… A comunicação precisa ser instantânea, caso contrário, deteriora-se. Deixou de ser uma particularidade das pessoas abastadas serem cyber. Todos, hoje em dia, tem de se tonar cyber, aliás, já deviam ser! Infelizmente, quando ocorre o contrário, a pessoa fica segregada como se não pertencesse ao todo e sim a uma pequena e “coitada” parcela da população MUNDIAL que não está interligada na rede e por isso alheia à mesma.
Todo esse rodo tecnológico que varre todos pra mesma vala é fruto da globalização que começou a 100 por hora e nunca possuiu freios. Todos… Sem excessão… Sofrem a influência dela que pode ser positiva ou negativa dependendo do ponto de vista.
Queria eu poder viver sem celular… Sem correria… Sem o imediatismo… Mas sou obrigado a me contentar, por enquanto, com as viagems(mentais e físicas)com meus amigos, que graças a JAH acontecem de vez em quando.