a cegueira da razão

O caminho da humanidade é trilhado em busca da luz da razão, e em fuga das trevas, da loucura, e do desconhecido. Mas se nos deparássemos com a luz da razão e ela nos cegasse? Teríamos então de renegar nossos valores e nos desprendermos das coisas que julgávamos ser a prova de sermos evoluídos, e que neste momento se tornam vis. A cegueira da razão, branca como a luz do conhecimento, nos faz enxergar quanto o ser humano se prende a banalidades ao tentar tornar-se superior.

 Buscamos a luz, mas o que faremos com ela depois? O conhecimento e a razão tornam a vida angustiante, pois nos fazem ver as coisas de maneira intrínseca, e passamos a perceber os detalhes mais sutis, as verdadeiras intenções dos outros. Compreendemos que aquilo que víamos como o nosso bem, era na verdade nosso alucinógeno e veneno. Ficamos, irremediavelmente, cegos para o mundo de quimeras fantasias, deixamos de ver o mundo que nos era mostrado e vemos um mundo angustiante, cru, denso, além das imagens ilusórias, como só um cego veria.

Em o Ensaio sobre a cegueira, José Saramago, autor português de 84 anos, narra um romance que surpreende o leitor a cada página. A história sobre uma cegueira misteriosa, que se torna uma verdadeira peste contagiando a todos, mostra o desmoronar de uma civilização.

A narrativa começa, já num conflito. A cegueira aparece logo no primeiro momento, quando ainda nada sabemos sobre a vida do primeiro cego.O autor assume o papel de narrador/observador da história, porém, num dado momento, ele empresta a função de narrador para um dos personagens. Neste tipo de narrativa, é comum que o leitor sugira que a história acontece independente do narrador, isto porque ele não parece ter muita importância para a história. Mas em se tratando de José Saramago, fica difícil, para quem o conhece, não perceber a sua presença no texto. Seu estilo se faz presente em todo o momento, na construção dos parágrafos, e nas falas construídas dentro deles, sem a presença do travessão. A sua maneira de conduzir o conflito, de forma que a real importância não se encontra no final, onde a resolução acontece, e sim no decorrer da narrativa, onde, na presença dos conflitos a história se desenvolve.

A história tem como conflito principal a cegueira que se espalha como uma verdadeira peste. Mas, a partir deste conflito, surgem outros conflitos afluentes, como os conflitos do convívio no manicômio, o poder exercido pelos soldados ou pelos próprios cegos, a fome, a falta de higiene, entre outros. Na estrutura da narrativa, estes conflitos são secundários, mas na história, tem caráter fundamental. É a partir deles que conseguimos perceber a essência do livro. Eles representam a degradação da civilização partindo de cada indivíduo civilizado, que vai, aos poucos, perdendo as características que são o pilar da sociedade, tais como o pudor, a ética burguesa, e até mesmo a moral. Estas coisas se tornam execráveis quando a única prioridade é sobreviver. A luta pela sobrevida é tão fundamental e instintiva, que as coisas sem real valor vão deixando de existir. O autor dá uma prova disto na história, como o fato de nenhuma personagem ter nome, nem mesmo o país em que se passam os fatos é denominado; ainda assim, o leitor que se envolve com a narrativa não sente a falta destes nomes, quem sabe nem a perceba.

Apesar de não terem nomes, ou talvez, principalmente pelo fato de não terem nomes, as personagens que vivem o conflito dividem-no, também, com o leitor, a interação acontece de maneira muito forte, porque as razões das personagens são muito plausíveis. As personagens acompanham as alterações que a história sofre, que são impulsionadas pelos fatos, tal como na vida, onde os fatos alteram as pessoas, na narrativa os acontecimentos alteram as personagens de forma brusca. E o leitor tem o privilégio de ver, melhor, inclusive, do que a mulher do médico (única personagem que não fica cega), toda esta metamorfose.

O Ensaio sobre a cegueira é, sem dúvida, uma obra profundamente crítica, e, de maneira muito agradável, proporciona, ao leitor, a construção deste estudo durante e após a experiência com o livro. Certamente, a crítica tem foco nos mesquinhos valores burgueses, que perdem o sentido mediante a situação do conflito. Principalmente, a idéia da posse, pilar do capitalismo, que é totalmente dissolvida em meio às circunstâncias. O leitor pode perceber isto ao longo de toda a narrativa, mas a constatação consolidada acontece exatamente no clímax da narrativa, revelando a importância que o autor deu a este ponto. Não poderia ser de outra forma, José Saramago, que é comunista, nos mostra, em pleno auge do capitalismo, que se torna globalizado, todas as falhas deste sistema que nos rege, e, de maneira bem sutil, que o que vemos hoje como ápice da civilização humana ainda é suscetível à total degradação.

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1 Response to “a cegueira da razão”


  1. 1 Maria Sansone

    Hi…Man i just love your blog, keep the cool posts comin..holy Sunday

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